14.9.06

Zeca Afonso: Uma Homenagem

Para um puto de 7 anos com eu em 1983, Zeca Afonso era um senhor de óculos gigantescos que aparecia na televisão a cantar "Venham mais cinco" e "Eles comem tudo" com um cravo de abril na mão, perante milhares de pessoas a aplaudir nos concertos. Claro que não sabia o que era o 25 de abril, não era o meu aniversário, por isso não interessava. Mas cativa-me todo aquele sentimento pós-25 de Abril, os comícios, os soldadinhos a correr dum lado para o outro, com flores nas armas.
Gostava sobretudo de Zeca Afonso. A música naquele tempo era uma arma. A música do Zeca deu lucidez e abriu os olhos a meio país.
Sempre gostei de Zeca Afonso. Não gostava de Mário Branco, nem de Janita Salomé e muito menos do canto de cisne do Vitorino. Achava piada ao Fausto, especialmente do "coça a barriga da menina", e até do "Força! Força! Companheiro Vasco", dedicada a Vasco Gonçalves. Mas, não sei porquê, adorava - e ainda gosto, comedidamente - das músicas de Zeca Afonso. Lembro-me, quando era puto, de ter ficado acordado até às duas da manhã para gravar o concerto do Zeca Afonso que passou no canal dois, quando o símbolo do canal dois era simplesmente o número 2, como se fosse desenhado à mão. Lembro-me que o meu pai adormeceu entretanto e eu tratei de tomar as rédeas da gravação, de forma "profissional", cortando os intervalos - pois a cassete de VHS era daquelas de 120m - de maneira a caber tudo. Senti-me mais «adulto» por ter ficado até altas horas quando não era suposto. Claro que não sabia o que significavam aquelas músicas de resistência, claro que não sabia o era «esquerda» e o que era o «regime». Um puto de 7 anos não sabe o que é a Pide, talvez uma maneira chique de dizer peido, nem o que quer dizer Fascismo, MFA, Capitães de Abril (um bom nome para uma série de animação, tipo Marretas) ou anti-fascista. O que me interessava era a música - ouvia as cassetes e os cds todos-, a música do Zeca Afonso: era melodiosa, embuída duma carga sentimental enorme e, soube mais tarde, de sentido político, escondido obviamente nas entrelinhas das canções, sobre a liberdade de expressão, fim da censura e contra o portugal amordaçado durante 40 anos de fascismo. No concerto, Zeca já estava muito debilitado, levantava-se e sentava-se muitas vezes, tinha cábulas das letras espalhadas pelo palco, mas era ele, o Zeca, estava ali.
Excelente compositor e cantor, Zeca Afonso, entre outros, foi a voz da geração política anti-fascista dos nossos pais, a voz que cantava o que o país sufocava por forças várias. Lutou e conseguiu. E nós com ele, todos juntos. A música foi um símbolo de combate, de união e de celebração.
Zeca foi a voz da democracia e da liberdade. De facto, «o povo é quem mais ordena». Zeca foi a voz do povo, foi voz para o povo e, juntamente com Amália, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, entre outros, foi a voz de Portugal.

Descobri no sótão um livrinho do meu pai, que digitalizei para este blog, intitulado «José Afonso - Textos e Canções», coordenação de Vale Moutinho, Livraria paisagem, 1975. Um livrinho com entrevistas, ensaios, letras das canções, críticas, artigos de jornal, etc. Zeca é corrosivo, incisivo e polémico, mas absolutamente esclarecido e consciente. Leia-se o que ele diz, na página 33, sobre o gosto musical da altura, que se podia perfeitamente aplicar ao nosso tempo: "As pessoas estão contaminadas por um gosto que lhes é fornecido, que lhes é imposto, e fixa na verdade as preferências da maioria. Torna-se urgente reagir, contribuir para uma higienização desse gosto". A ler.









O autógrafo que Zeca Afonso deu ao meu pai, no livro atrás referido, assinando por cima da rúbrica que o meu pai faz em todos os livros que compra.

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