25.4.12

Morreu? Então e o filme?


Interior. Sala. Homem ao telefone.

"Estou? Está lá? É da casa da....ah, não está!...Saiu?....Quem fala?....Ah, é a mãe..... O quê? Ela morreu? Não me diga?!...Quando?.... Ontem à noite? Olhe, que pena, porque eu tinha combinado com ela ir ao cinema hoje às duas e meia e agora não sei o que fazer aos bilhetes... Como diz?...Pois é melhor tentar vender o dela....hum.... pois, há sempre alguém que compra... Então, ela morreu de quê, diga lá? Acidente de trânsito! Ah, foi contra um camião TIR....pois....pois.... há uma lei da estrada para cumprir, é isso....ir a 200 km à hora parece um bocado demais, pois é....estou a ver, estou a ver....pois, o álcool é nisso que dá também, só porque o namorado já não lhe ligava nenhuma... que pena, pois é.... Olha, a irmã dela se calhar é que podia vir, o bilhete já está comprado....Não, a outra, a mais bonita, sim a que tem umas grandes mam......pois...também vai ao funeral, está certo....faz sentido...pois, é irmã, está no sangue....E a prima?...ah também vai....pois é, isso é que é uma família unida, hã, sim senhor....Não, de facto, lamento imenso, olhe, isto também não está fácil,  não consegui arranjar convites para a antestreia, você sabe como são estas coisas dos cinéfilos, é tudo uma máfia do caralho, isto quando é para ir ao cinema à borla....pois, estou a ver...Olhe, isso dos funerais demora muito? Ainda podia trocar os bilhetes da tarde para a última sessão, se calhar era melhor, dava para a sua outra filha espairecer as ideias...Pois, é melhor não então... Ah, está farta de chorar...pá, íamos ver uma comédia, era o mais indicado nestas alt.....Olhe, e onde foi o acidente? Mesmo no meio da ponte? Acho que me lembro disso, ontem vinha do cinema para casa e por isso é que ninguém conseguia passar... Estava tanta gente, uns ao telemóvel a tirar fotos e tudo e pensei logo «olha, mais um maluco que parou o carro a meio da ponte para fazer bungee-junping, não arranjam trabalho depois metem-se nestas coisas».... Estou a ver... Devia ser ela... Não, não dava para ver quem era, a frente do carro estava toda metida dentro do camião....Pois, vai para a sucata...Olhe, o camião também não ficou em muito bom estado, aquela frente vai precisar cá duns arranjos....pois... pois... os seguros pagam tudo....Ei, não me diga, a ambulância demorou meia-hora a chegar ao local? Eu vi logo, eles vêm a ouvir o relato ou lá o que é essa merda e prontos....sabe, foda-se, é isto que me revolta, a indiferença das pessoas hoje em dia, não há um gajo que pare hoje em dia para socorrer ninguém...não há um cabrão que deite uma mão a alguém neste país de merda.... Sim, sim....mas olhe uma coisa, o que é que lhe deu para sair de casa à noite? Hã...uma briga com o namorado, estou a ver... Andava com outra, pois elas agora vêm com cada decote, estão mesmo a pedi-las, parecem hienas no cio.... Pois, ela de facto andava um bocado em baixo...veja lá, eu até a convidei para ir ao cinema... pois...estou?
Estou? Está lá?...."

Homem olha para o telefone e pousa-o na mesa da sala. Senta-se no sofá e liga a televisão.
Fim.

(1999).

Sem ti

O mundo vai acabar. E eu ainda continuo sem ti. Ainda bem que o mundo vai acabar.

Com essas mãos

Gosto das tuas mãos, que adormecem na minha cara, embalam o meu sono. Dormem comigo, juntinhas a mim, aproveitando as horas solitárias da noite para me contarem uma história que já sei de cor e salteado. Começa sempre da mesma maneira.
Essas mãos começam por beijar-me os ombros, descansam na minha cara e depois percorrem-me o corpo todo até se cansarem de felicidade. Depois afagam-me o pescoço, descem pelas costas abaixo e espetam-me um punhal dourado que comprei especialmente para ti.
Deitado no chão, esvaindo sangue, ouço a tua voz como se me falasses de longe, de outra época, numa memória que não consigo situar, pedindo-me desculpa uns segundos antes de desferires outro golpe, desta vez mesmo no peito, 3cm abaixo do coração.
Nem sequer pontaria tens, que inútil que me saiste.
"Prometo que é a última vez que te mato", ainda consigo ouvir entre as punhaladas fatais.
"Eu sei", respondo, olhando para as mãos dela, que reviram a faca no sentido dos ponteiros do relógio, para que a ferida nunca mais feche, "esta também é a última vez que morro por ti".

(1999).

Hoje acordara com um beijo!

Hoje acordara com um beijo. Não um, nem dois, nem três, mas com um só beijo. Nesse momento em que os seus lábios refrescaram-se com o doce sabor vindo de lábios invisíveis, acordou do seu sonho de amor e paixão com que adormecera nessa noite. Como dormira fora de casa, deitado no jardim, as suas lágrimas secaram com o vento quente da noite, que viera embalar-lhe o sono, vindo depois a geada e o orvalho fazer-lhe companhia, matanto as saudades que nunca teve do seu amor. Com um beijo, acordara para o mundo e o seu amor renascera como uma bola nas mãos de uma criança.
Com a cabeça pousada sobre a relva, ouvindo nada mais do que o bater do seu coração, abriu os olhos e viu uma núvem cinzentona que pairava sobre si como um abutre sobre uma carcaça.
Depois sente a relva húmida que lhe gela as costas e fazendo um esforço para levantar-se, olha em redor e descobre que o beijo invisível que o fizera acordar para o mundo, enquanto dormia deitado na relva do jardim, foi simplesmente a gosma dum caracol que deslizava descontraído pelos seus lábios.

(1999).

Adoro-te!

"Adoro-te, mesmo quando dizes que ninguém gosta de ti", disse-lhe eu, com voz tremida, segurando a mão dela, dançando ao som de «Another night in» dos Tindersticks. "Quem me dera que o meu namorado fosse como tu", suspira ela, colocando a cabeça no meu ombro esquerdo, "mas tu não tens hipóteses nenhumas contra ele", rematou, dando-me um pequeno beijo tímido no pescoço. Fecha os olhos e diz, abraçando-me com força agora: "nem nunca terás!"
Separamo-nos. Ela dá meia volta sobre si mesma, sempre agarrada à minha mão e juntamo-nos outra vez, agarradinhos. Agora estamos os dois a sorrir um para o outro.
"Fica sabendo que o amo muito", diz ela, ficando séria de repente. Olho para os olhos dela. Estão tristes, um segundo depois começam a brilhar, ela ri-se e um segundo depois estão tristes outra vez.
"Então", hesito eu, contemplando uma garrafa de vodka perdida no chão - "quer dizer que não tenho hipótese nenhuma?"
Abraçamo-nos outra vez.
"Não. Nunca terás."
Abraçamo-nos outra vez, ainda mais forte. Não consigo respirar.
"A música está quase a acabar".
"Pois está".
"Só mais um bocado?"..
"Sim, só mais um bocado...."
"Até ao fim das nossas vidas?"
"Sim."

(1999).

24.4.12

Romantismos II

"Querida, disse-lhe eu, se prometeres que não vais rir, eu digo-te que rapariga é que eu gosto - mas não penses que és tu, senão desmancho-me eu a rir!"

Romantismos I

"Querida, disse-lhe eu, desde que te conheci que tenho comido o pão que o Diabo amassou.. Não aprendi grande coisa sobre o amor, mas fiquei a saber que, ao que parece, o Diabo é um péssimo padeiro!"

Independente, 2000.


Quando era miúdo sonhava em escrever crónicas para jornais. Sonhava escrever para O Independente, jornal fundado pelo cronista que mais gosto: Miguel Esteves Cardoso. Com sorte, muita sorte, publicaram uma carta minha em que eu tecia grandes e sinceros elogios à qualidade daquele jornal. E que ninguém negava. Nunca mais houve nem nunca mais haverá um jornal como O Independente. Pelo menos até hoje..






Não vou reproduzir a crónica em si porque não a considero muito boa: são meia dúzia de elogios e um muito obrigado no fim. Nessa altura, em Setembro de 2000, para um jovem quase licenciado e com pretensões literárias, ver publicado um textinho meu, por muito medíocre e mal escrito que fosse, num grande jornal de referência como O Independente (onde escreviam todos os meus cronistas preferidos: Vasco Pulido Valente, MEC, João Pereira Coutinho, Paulo Nogueira, Nuno Rogeiro, Maria Filomena Mónica, etc) era como acabar um curso qualquer e ser convidado a dar aulas em Harvard.
Mas aprendi que só se tem sonhos quando se é muito novo e, à medida que vamos envelhecendo, aprendemos que tudo o que vale a pena fazer só se consegue com muito, muito trabalho.
Aprendi que escrever dá trabalho e escrever bem dá muito trabalho, principalmente quando o objectivo principal de qualquer cronista é simplesmente divertir o leitor.
Ou devería ser.

Ken Follett: Grandes leituras!


2 Livros. Mais de duas mil páginas de puro prazer. Durante meses desapareci do radar e mergulhei neste mundo medieval criado por Ken Follett. Foram manhãs, tardes e noites inteiras. Ía para o trabalho a pensar no livro. Dormir era um intervalo desnecessário. Falei a toda a gente sobre estes livros. O facto de serem calhamaços brutais afastou toda a gente da sua leitura. Sim, os livros são grandes em tudo. Mas a verdade é esta: não há uma única página chata. Quando ainda «só» ía na página 600, ficava contente por ainda faltarem 400 para o fim. Lembro-me de a Oprah dizer no programa dela que ela pedia para que o livro não acabasse nunca (ao Youtube, já!).
Tal como um grande amor, eu  também não queria que acabasse...
 Só consegui convencer um amigo, que leu os Pilares (mal acabou, telefonou-me logo e disse «eh pá, altamente»), e o meu pai, que leu os dois, numa edição de 4 livros, da Editora Presença. Cada livro custou-me 9€, na edição inglesa, tão barato que ainda hoje olho para eles sossegadinhos na prateleira e penso se não ouve engano no preço. Em Portugal, a tradução transformou estes 2 livros em 4 calhamaços que custam 23€ cada um. Na Feira do Livro do Porto ainda os vi a 21€ e a Livraria Almedina do Arrábida Shopping, no Natal passado, fez um pack de dois pelo preço de um, e que se venderam que nem ginjas.
Sei que os Pilares da Terra foram adaptados para uma série que passa no Canal AXN, mas recuso-me a vê-la. Não quero saber se é boa, se é má, se a adaptação está bem feita ou não. Não quero saber se vai ganhar prémios.
Não é o livro.
Não é o «meu» livro, aquelas não são as minhas personagens e, francamente, não quero ver rostos hollywoodescos nas personagens dos Pilares, nem bandas sonoras de Michael Williams. 
Vocês estão agora a perguntar: mas os livros são sobre o quê?
Não vou dizer.

22.4.12

O melhor da vida!

Mongol General: Hao! Dai ye! We won again! This is good, but what is best in life?
Mongol: The open steppe, fleet horse, falcons at your wrist, and the wind in your hair.
Mongol General: Wrong! Conan! What is best in life?
Conan: To crush your enemies, see them driven before you, and to hear the lamentation of their women.
Mongol General: That is good! That is good.
"What is best in life?", cena do filme Conan The Barbarian, de John Milius (1982).



19.4.12

Superman II

Lois Lane apaixonou-se pelo Superman e não (jamais) pelo Clark Kent. O amor dela é tão grande que  impede-a de ver que eles são uma só pessoa. Superman é apenas Clark Kent sem óculos e vestido com um pijama azul. Mas ele tem «poder». Clark Kent é um colega de trabalho e, quanto muito, um amigo, mas não a faz voar, nem sonhar. O amor de Lois Lane pelo Superman é um amor pelo divino, pelo etéreo e pelo transcendente. Nunca, jamais, em tempo algum, Lois Lane se apaixonará por Clark Kent, porque depois de se amar o que é divino, o que vem de cima, o que é transcendental, é impossível amar-se o que é simplesmente humano.

Superman I

S de Superman.
S de Salvador.
S de Solitário.
Estar acima de todos e ser o mais forte do mundo é estar sozinho. 

18.4.12

Boas cozinheiras!


No meu entender, um homem só se divorcia por dois motivos: Ou ela não sabe fazer nada na cama, o que é mau, ou não sabe fazer nada na cozinha, o que é pior. Prefiro o primeiro motivo - é muito mais difícil arranjar uma boa cozinheira hoje em dia!

17.4.12

Um agradecimento e um aviso à população

Já que não posso deixar em mais lado nenhum, queria deixar aqui, não só um sincero agradecimento aos milhares de fãs que trocaram as àguas infectas do Facebook pela sábia e inteligente escolha de ler este blogue, mas também agradecer as dezenas de cartas e emails que raparigas holandesas, loiras, altas e de fartos seios me enviaram, e cuja única frase em português dizia somente «oral completo»,  com propostas indecentes para casar, juntar, viajar e outros verbos começados por «F». Bem hajam a todas, agora mandem-me fotos em que apareçam vestidas, senão não vos vou conseguir reconhecer na rua!
De forma que agora perco o meu tempo  a contemplar o poster que a equipa de volleyball feminina dum país nórdico me mandou: deixem-me dar-vos uma pista - elas não estão a jogar volleyball!
 A foto que subtilmente coloquei ao lado deste texto representa no fundo a a minha apreciação do público que me lê, não só estéticamente mas também de carácter: sim, sois todos uns burros por perderem o vosso tempo a ler as minhas fracas opiniões sobre coisas que não interessam mesmo a ninguém e eu também sou um burro por escrever estas piadolas sem contrapartida monetária, sim, de graça, sem receber cheta, caracanhol, pilim, arame, a troco apenas de um desconto de 10% na compra da revista Penthouse (ainda por cima, só recebo a versão censurada, aquela em que as mamocas e as restantes partes pudibundas das nudistas estão cobertas com gigantes rectângulos pretos, obrigando-me a ter que puxar pela imaginação e recorrer a umas fantasias antigas sobre moçoilas do campo de forquilha na mão, duas vacas, um banco e um balde)...
Desculpem o tom jocoso desta missiva, mas tenho de prevenir os meus leitores mais incáutos em relação ao conteúdo pecaminoso destas crónicas e uma parte de mim mais sentimentalista tem compaixão do vosso baixíssimo QI , como tal, aqui vão alguns lembretes bem avisados sobre o modo de bem ler este blogue:

A) Abrir o blogue e franzir imediatamente a sobrancelha esquerda: se não há conteúdo pornográfico (o que vai ser raro), então chamar a restante família, arrastar a avó tresloucada do sofá e atirar a renda que ela estava a fazer para a lareira para avivar as chamas e continuar com o «scroll down»; não vejo nada contra em fazerem um pequeno piquenique com tremoços, 'bejecas' e sandes de torresmos; ao avô basta colocar umas rodinhas automáticas com motor na andadeira;
B) Preparar os sacos de enjoo que subltimente surripiaram do avião quando foram de férias para sítios pirosos como Palma de Maiorca ou Tenerife, com os vossos amigos de pendor cultural mais grunho ("isto vai ser uma moca, man.."), só porque a obesa da vossa esposa vos apanhou na cozinha a ingerir o primeiro bagacito da manhã e resolveu sugerir, enquanto limpava o esturgido da colher de pau nos beiços (não, os de cima!..): «Ai, 'Mor, este ano vamos para uma ilha, estou mesmo a precisar duns bafos de calor mediterrânico pela peida acima»! (Eu sempre disse que era um romântico, que o digam as minhas 14 «ex»); para além dos sacos de enjoo, recomendo água com gás, e para os mais valentes, uma «mini».
C) Com toda a família bem instalada, não esquecendo de dar umas mocadas com a vassoura ao puto mais novo para não limpar o ranho ao cabelo da irmã, agora é que começa a diversão:  Como de costume, o mais literato de vocês vai ter que ler, em voz bem alta, algumas passagens mais bem pensadas, vulgo «aforismos», ao avô que, infelizmente, apanhou um balázio nos cornos quando estava na Guiné e desde aí a única frase que consegue pronunciar é «baixem-se todos, que os 'elicópatros' já estão a cagar 'missis'»;
D) Depois basta partilhar com o resto da malta, no fim de cada texto: «É pá, sim 'sinhori'»,  ou então «que porcaria é esta? Vou mas é para o 'Feicebúke' ver as fotos da minha vizinha, deitada no chão da casa de banho de um bar, sem soutien e um 'pénes' desenhado na testa a carvão»;
E) Faça-se um silêncio sepulcral, genuinamente partilhado por todos os convivas. Recomenda-se que seja a Mulher da casa a iniciar a retirada, bastando um «bem, vou mas é tratar do almoço»;
E) Altura de fechar o blogue e apagá-lo dos favoritos. Num acesso de raiva ou desgosto é permito lançar o PC janela fora, desde que aterre no BMW novinho do vizinho;
F) Ir para o café ler a página do Relax do Jornal de Notícias;
G) Colocar outra vez a avó na sala a ver a TVI, ou o rancho das coelhinhas na Sic Radical (não me responsabilizo);
H) E finalmente, não ligar muito ao que vem escrito neste blogue.

Vá lá, ide para outro lado.
Get a life! 
Não sejam burros!..

(O meu sincero obrigado a todos)

12.4.12

Desilusões III

O pilar de qualquer relação amorosa de sucesso assenta sempre no facto de a mulher nunca dizer aquilo que sente e o marido nunca dizer aquilo que pensa. Nunca saber a verdade sobre os sentimentos está na base de um casamento para toda a vida.