30.9.06

Férias!

E agora pessoal, vou aproveitar para tirar uns tempos e gozar umas férias bem merecidas e dar descanso a este blog. Voltaremos assim que se considerar necessário.

A nossa vida é isto??

Resposta: é.

28.9.06

Leituras: O Sul De Miguel Sousa Tavares

Gosto mesmo muito de literatura de viagens. Júlio Verne, claro, é o meu preferido, mas também tenho alguma bibliografia de viagens diversificada, desde diários de Cristóvão Colombo, Daniel Dafoe, etc. Uma viagem, seja ela de que tipo fôr, quando bem contada e superiormente escrita, consegue ser melhor do que a viagem em si e até transcendê-la.
O que é uma linha de combóio, um autocarro ou um barco comparado à descrição literária dos mesmos? O que é a paisagem em si comparada ao que so pode escrever e sentir por causa do que se escreve dela?
A literatura de viagens é um género literário fascinante, capaz de fazer o próprio leitor viajar, sonhar, imaginar, sentir, etc.
Gosto de Sul: Viagens de Miguel Sousa Tavares. Por dois motivos. Não só o livro é fascinante e está bem escrito como também só gosto de viajar para o sul. Sempre para Sul.
Quando era pequenito e o meu pai dizía-nos que íamos passear para o norte, sei lá, para o Minho, Bragança, etc, só me apetecia vomitar. Detesto o Marão. A viagem enjoava-me e dava-me náuseas. Só queria ir para casa. Odeio quando a paisagem é sempre a mesma durante 10 kms. Odeio tudo o que é pinheiros, campos de milho e de girassóis - para mim, só com uma paulada na cabeça dada na portagem em Lisboa, para ir a dormitar sossegadinho até Lagos, é que consigo atravessar o Alentejo de carro) -, em suma: odeio o campo, pronto. Detesto montanhas, detesto piqueniques de todo o tipo, seja à sombrinha, seja num pinhal. Gosto do norte no que refere à gastronomia, por ex. A paisagem é bonita, claro, mas para aí durante 10m. O Gerês é maravilhoso mas para passar um fim de semana. No entanto, defendo que o Norte, o Alentejo e os Açores devem permanecer como estão, intocáveis pelo homem, no seu estado natural, durante o tempo que for possível. O Sul, sim, podemos «abandalhar» à nossa vontade, poluír, semear auto-estradas, prédios e estádios de futebol - enfim: estragar! O norte devería estar como está durante mais 5 séculos. Sería o ideal. O sul deve melhorar, claro. O norte devia ser a nossa amazónia privada, verdinha, impoluta, cheia de bichos selvagens ou em vias de extinção e rios limpos. Só se devia viajar para norte de barco e, para certas zonas, de helicóptero ou cair de pára-quedas. Em Portugal, o Sul devía ser a casa e o Norte o quintal. O Sul a fachada e o Norte as traseiras.
Só gosto do sul, de ir a para sul, de viajar para sul. Só gosto de civilização, cidades, barulho. As casinhas no norte, isoladas e com pastagens a abarrotar de vacas e cabras não tem tanto encanto, para mim, como dormir num hotel e comprar uns bifes do lombo num hipermercado. Gosto de pessoas. Gostar de cidades é gostar de pessoas.
Para mim o norte é rural, agrícola e aldeão; o sul é urbano, industrial, cosmopolita. Nós, Portugueses, nos últimos 500 anos sempre quisémos ir para sul, descobrir, sair, fugir, e morar. Desde D. Afonso Henriques que gostámos de ir para o Algarve em Agosto. Montados nas carroças, nas liteiras e nos burricos lá íamos, todos lampeiros e de marmita às costas, gozar 15 dias de férias a Albufeira.

Por isso adoro Sul Viagens de M.S.T. Gosto da palavra Sul. O norte tem o seu encanto cultural, paisagístico, filósófico e até poético, mas é para sul que vou sempre que posso e que sempre quis ir. Sul sempre foi o nosso objectivo, a nossa meta, o nosso karma. Em Portugal, quando viajo, a minha bússola aponta sempre o «sul magnético».
O norte pode ser um paraíso.
O sul é outra coisa melhor.

"Este é um livro de viagens, um livro de alguém que, como nos sonhos de infância, teve a sorte de partir tantas vezes com pouco mais que um saco de viagem e uma máquina de filmar ou de fotografar. (...) Nem sempre viajei
para sul, mas nada vi de tão extraordinário como o sul. O Sul é uma porta de avião que se abre e um cheiro inebriante a verde que nos suga, o calor, a humidade colada à pele, os risos das pessoas, o ruído, a confusão de um terminal de bagagens, um excesso de tudo que nos engole e arrasta como uma vaga gigantesca. Apetece fechar os olhos, quebrar os gestos e deixar-se ir. Mas é justamente neste caos que eu procuro a lucidez do contador de histórias."
Miguel Sousa Tavares

27.9.06

Eu e o Manuel aparecemos no Jornal Praça Pública de Ovar!!

No dia 9 deste mês, um sábado, lá ía com os meus amigos para Ovar quando, no lugar do Buçaquinho, deparamos com um autocarro atravessado no meio da rua, com a traseira encalhada na areia do pinhal, depois de várias tentativas frustradas por parte do condutor em fazer inversão de marcha naquele sítio. O condutor, atrapalhado, lá tentava arranjar soluções para desencalhar o gigante de ferro mas sem solução aparente. No autocarro vinha uma excursão da terceira idade que aproveitou para sentar-se nas cadeiras de praia e ver o «circo pegar fogo». Eu e o Manuel, numa foto tirada pelo nosso amigo Sandro, publicada pelo jornal Praça Pública, lá fomos «ajudar» a empurrar a camioneta. No fim do dia, passámos por lá, à vinda embora, mas já não havia vestígios do autocarro. De resto os velhinhos encontram-se a são e salvo no conforto dos seus lares da terceira idade.
Uma semi-aventura.

Ficou a foto para a posteridade.

Como se pode verificar na foto, o Manuel, num rasgo de ousadia herculeana, tentava levantar o autocarro; eu, no lado direito, posando para a foto, ao estilo Superman, tentava desencalhar a lata gigante, com um empurrão que se revelou ineficaz. Dois gestos teatrais numa foto com grande qualidade artística.

Foto: Praça Pública, Semanário de Ovar, Quarta-Feira, 20 de Setembro de 2006, pág 6.

26.9.06

O que eu ando a ouvir! Clicar na música para ver o clip no youtube!

Transmission e She's lost Control dos Joy Division, duas belas canções do pós-punk de Manchester em 1979.
Lost in a melody dos The Delays, que descobri recentemente, e anda sempre no ouvido: aquele som tipo electro-anos-80 e uma atitude sempre a pedalar.
Suedehead de Morrissey, pós-Smiths, a solo no álbum Viva Hate. Era apenas o começo.
Munich dos Editors, uma banda com lugar de honra nas praleteiras da pop actual. Grande banda.
Hope there's someone de Antony and the Johnsons. Para nos roubar o coração, parti-lo e varrer os cacos para dentro da nossa alma.
Do you want to dos Franz Ferdinand. Pop fresca e alegre, party-pop. Todas as bandas querem ser Franz Ferdinand, mas não dá.
Bullet proof skin dos Institute, banda de Gavin Roosdale, ex-Bush, a fazer-nos lembrar porque é que gostavamos dos mesmos.
Dance me to the end of love, de Leonard Cohen, meu ídolo há anos, aqui num videoclip onde entra nada mais nada menos que Quentin Tarantino. Mais valia chamar-se Dance me to the end of muthafuckin' love!!....
Protection dos Massive Attack. Grande som dos pais do Trip-Hop.
The Richest Man In Babylon dos Thievery Corporation, os mestres da música «cool».

25.9.06

Cinefilia: V de Vingança

Este não é um filme do tipo "uma agradável surpresa" ou "excelente" ou "obrigatório". Não. Este é um filme «do caralho» mesmo. Politicamente incorrecto, V for Vendetta é uma obra-prima de grande qualidade, quer em arrojo quer em liberdade artística e cinematográfica.

23.9.06

Leonel e Luzia: As Fotos do Casamento

O noivo, junto ao carro, o Twingo do amor, visivelmente alegre com o aspecto vilipendiado da carripana. O que ele ainda não sabe é que o interior do carro está uma verdadeira lástima. Mas ele veio prevenido com facas de mato, lanternas, extintores, gruas e 300 kilos de material de bombeiros e sapadores... Para entrar dentro do carro foi preciso recorrer a técnicas ancestrais de arrombamento de veículos, tipo desvastação da floresta amazónica à catanada, ao estilo Indiana Jones. Eu e o Jorge colocamos balões na parte de trás, enchidos a plenos pulmões, já de si gastos a cantar Karaoke, e pintamos todo o carro como manda a etiqueta, com desenhos de genitália variada, frases estimulantes e de apoio sexual ao casal e, claro está, não podia faltar o fio de latas vazias a rastejar pelo chão a imitar o "dlim-dlim" característico do chocalho do gado bovino.
Enfim...
Nada que 348 lavagens não resolvam...


"Ei, como é que eu vou meter as mudanças nesta selva de fios??" Ó 'Mor, para a próxima vimos de casal duas famel zundapp 600 turbo."


"Ai que filhos da... ai já vão tirar fotos? Tá lindo o carro, tá, sim sinhori, brigadinho, eu depois mando a conta seus...."


Eu e o Jorge, a posar para a foto. Mais uma obra prima surrealista. Mas ainda estavamos muito longe do nosso objectivo: encher o carro com entulho da lixeira municipal e, com recurso a uma grua, colocá-lo no cimo duma árvore. Foram contra a ideia... Well... Next time...


Eu, para desmoer o bacalhau com natas, lá fui fingir que tocava para a fotografia. O Jorge apercebeu-se e perguntou-me se eu não estava mais habituado a tocar órgão?! Fingi que não percebi...


Elisabete e Luzia, a noiva.
Beta: "Isto do casamento é muito bonito mas depois somos nós a lavar a loiça."
Luzia: Tá calada, disfarça e ri-te para a foto!"


A Betinha e o Jorginho, os próximos a dar o nó, se tudo correr bem. Mas só daqui a um ano, o tempo necessário para encomendar duas paletes de viagra.


A Patrícia, na casa dos noivos, enquanto eles viajavam pelo país na lua de mel, punha, com as amigas, a casa totalmente em pantanas. A casa ficou de tal forma danificada que foi necessária a intervenção de 20 companhias de limpeza, 300 sapadores e duas gruas só para se poder entrar em casa e uma frota da força aéria para desinfestar com 10 pulverizadores os enxames de moscas que rodeavam a casa devido à lixeira acumulada. Avisa-se a população que os criminosos, segundo notícias da CNN, ainda continuam a monte...

21.9.06

O Indy!

Um dos meus jornais preferidos de todos os tempos - O Independente - fechou as portas. Lembro-me que o "Indy" publicou, em Setembro de 2000, uma carta minha a elogiar o jornal quanto ao custo-benefício: Na altura custava 450 paus e trazia tanta coisa, tantos suplementos, enfim, era um verdadeiro festim. O director (e o melhor cronista português da segunda metade do séc. XX) e meu ídolo da Noite da Má-Língua, Miguel Esteves Cardoso, teve a amabilidade de publicar a minha cartita e achou graça quando lhe disse que até dava "mil paus" pelo jornal ao qual ele, ou alguém na redação, perguntou, no fim da carta, "Quando é que podes começar?" O melhor do jornalismo está nos anos 90. Sem dúvida.

Em maio de 1988, Miguel Esteves Cardoso (no meio), saído do Expresso e Paulo Portas (muito novo, com 25 anos, à direita) fundavam O Independente, o jornal de referência da direita anti-sistema, (alegadamente) conservadora, eurocéptica e pró-Portugal. Faço parte e fiz parte da chamada "Geração Indy", desde o cavaquismo até ao final do guterrismo, uma legião de fãs arrastada por este jornal e pelo génio do fenómeno MEC, que se confirmou neste jornal e na revista Kapa (1990-1992) .

Uma das capas do Independente. Saudades. Muitas.

20.9.06

Eu e a Bety na Fundação Serralves: Postal de Recordação!

Frente
Verso
Legenda: "Esta fundação é linda como o carago!!" 20-11-06. Nelson / "Foi uma agradável surpresa! É diferente de tudo o que já vi! 20-11-06. Ps - Mas é caro como o C******". Elisabete

19.9.06

Ode ao fracasso!

Convidei-te para sair porque eras a minha última escolha. Ninguém mais aceitou. Mas tu aceitaste. Só que, de repente, fiquei triste. Pior do que ser rejeitado por quem se quer, é ser aceite por quem não se quer. Ninguém deseja o que nos é dado de livre vontade.

*
Amiga minha diz-me, desabafando, que o divórcio dela finalmente tinha saído, após 4 anos de sangrentas batalhas judiciais. Depois sorriu e disse: "Finalmente 'tou livre como um passarinho, para encontrar alguém que me faça feliz!" Depois olhou para mim, para ver a minha reacção e eu disse-lhe: "Ó filha, não estejas a olhar para mim, o que não serviu para os outros também não vai servir para mim..."
*
Falhar. Falhar outra vez. Falhar melhor. (Samuel Beckett)
*
O mais importante de tudo numa relação é a aparência e nunca a essência. Não importa o que se diz mas a maneira como se diz e como se faz. Mandar uma gaja foder-se só resulta se a abandonar-mos no meio da estrada e nunca à porta da casa dela, depois de lhe dar-mos boleia.
*
O maior fracasso que o homem pode ter é casar com a mulher errada. O maior sucesso é ter a amante certa.

Evolução!..Ou nem por isso?

Uns Morrem....




Outros ficam assim...

Cinefilia: O libertino

Não vou dizer nada sobre este filme, excepto citar este diálago entre Rochester (Johnny Depp) e uma prostituta.

Rochester: Did you miss me?
Jane: I missed the money.
Rochester: Good. I don't like a whore with sentiment!

E também este:

Rochester: This is your first season on the London stage? Elizabeth Barry: It is, my lord.
Rochester: Mrs. Barry, you must acquire the trick of ignoring those who do not like you. In my experience, those who do not like you fall into two categories: The stupid and the envious. The stupid will like you in five years time. The envious, never.

E, por último, não podia esquecer-me deste, claro:

Rochester: I don't mean to upset people, but I must speak my mind. For what's in my mind is far more interesting than whats outside my mind.
Alcock: Then that makes you quite impossible to live with.

18.9.06

The Jills ao vivo no Hard Club: Rock, cerveja e ambientes fumarentos de cabaret (tudo por €2)!

Hard Club. Sexta-feira. Já passava da meia noite. A cinderela foi-se na carruagem, ficaram os carroceiros. Nós. A última vez que estive ali foi em 1998 para ver os "2kill", antiga banda de Mr.Bike que agora integra uma nova orquesta sinfónica: Os The Jills.
Casa pequena, meia dúzia de gatos pingados, como convém a uma banda pequena em plena ascensão. Entrada: 2€. No palco, a abrir as hostilidades, antes dos RockPoets, os The Jills, banda auto-intitulada de punk-rock. Rock, sim, a música. Punk, não, nada. Excepto a pose artística. O punk (música, letras e restante iconografia) tinha conotações políticas e morreu no fim dos anos 70. Mas a banda até tem uma certa atitude punk, lá isso tem, na medida em usam t-shirts e ícones punks: a correia do autoclismo nas calças de ganga coçadas, sapatilhas all-star, barba de 3 dias, beata ao canto da boca tipo velhote no parque a jogar à bisca, palavreado de rocker tipo «oh yeah baby».
Falando de rock, a «rockar», logo a abrir, tocaram Black Mamba, um conjunto de poderosos riffs destilados por guitarras estridentes (a qualidade literária desta frase deve-se à suposição de um futuro reembolso de uma cervejola fresquinha por parte de Mr. Bike). Noto a assistência a começar lentamente a acordar e a mexer os bracinhos no ar. Depois, segue-se Got a M.F. On My Back, o sedutor Tired and Wasted, Love Me For The Money, entre outras, até chegarmos à minha preferida, La Petite Putaine de Paris - simplesmente porque gosto de Putaines e de Paris - uma mistura subtil de rock com uma pitada de «cabaret moulin rouge», que me agradou bastante e acho que se for mais aperfeiçoada pode vir mesmo a ser um "hit-single"da banda.
Mr. Bike entrega-se de voz e alma a uma rebeldia sem causa aparente, arrastando os ossos pelo chão do palco ao som espasmódico da música. Nota-se ali uma certa rebeldia a la Kurt Cobain, completamente enraizada nas veias dos rockers actuais: vocalizações angustiadas, posturas urbano-depressivas, a despontar numa fúria incontida, como convém à pose (porque punk-rock é uma mistura de dois sabores que se anulam um ao outro, ficando apenas a bonita côr da mistela). O resto da banda tudo fez para animar a malta. E a malta animou-se. Era rock. Puro.
A acabar, a música "Oh Yeah", que foi cantada competentemente por todos, uma espécie de hino da banda para levarmos no ouvido à ida embora.
Um concerto pequeno, mas esforçado e eficaz. Não é apenas um bom começo - é uma experiência positiva para a banda, um óptimo incentivo, um puxão de orelhas disfarçado de palmadinha nas costas. O rock dos The Jills é um Rock bem comportadinho e limpinho, rock tipo "come a sopinha toda", embora não conseguindo disfarçar, aqui e além, alguns maneirismos e tiques punk, estilo tourette síndrome: "Que se foda a sopa e as couves eu quero é bifanas com cerveja, fuck this!". O punk-rock dos The Jills é mais rock e menos punk: 98% por cento das músicas são puro rock, com repetição do chorus até à exaustão, e 2% são punk, nomeadamente a indumentária e meio dúzia de palavrões pelo meio para intimidar a populaça.
Competentes e esforçados. Objectivo cumprido.

Ver alinhamento do concerto aqui.
Ver blog da banda
aqui e ouvir algumas faixas da banda aqui.

A segunda parte, coube aos RockPoets, que não conheço mas já ouvi algumas canções deles no myspace e posso dizer que para quem gosta de rock, puro rock, e nada mais do que o rock, não vai ficar desiludido. Achei o som da banda cativante, tipo "old-school", a fazer lembrar o Seattle Sound no início dos anos 90 e, até certo ponto, o estilo e som dos 2kill, a banda antiga do Mr.Bike. A ouvir Stupid Lady, Rockpoets e Ramones Cover.

Neste Blog também há espaço - e haverá sempre - para divulgação de bandas novas e, como tal, aqui fica o site da banda http://rockalhadas.blogspot.com.
Ou se quiserem ouvir algumas faixas podem ouvir os RockPoets aqui.

14.9.06

Zeca Afonso: Uma Homenagem

Para um puto de 7 anos com eu em 1983, Zeca Afonso era um senhor de óculos gigantescos que aparecia na televisão a cantar "Venham mais cinco" e "Eles comem tudo" com um cravo de abril na mão, perante milhares de pessoas a aplaudir nos concertos. Claro que não sabia o que era o 25 de abril, não era o meu aniversário, por isso não interessava. Mas cativa-me todo aquele sentimento pós-25 de Abril, os comícios, os soldadinhos a correr dum lado para o outro, com flores nas armas.
Gostava sobretudo de Zeca Afonso. A música naquele tempo era uma arma. A música do Zeca deu lucidez e abriu os olhos a meio país.
Sempre gostei de Zeca Afonso. Não gostava de Mário Branco, nem de Janita Salomé e muito menos do canto de cisne do Vitorino. Achava piada ao Fausto, especialmente do "coça a barriga da menina", e até do "Força! Força! Companheiro Vasco", dedicada a Vasco Gonçalves. Mas, não sei porquê, adorava - e ainda gosto, comedidamente - das músicas de Zeca Afonso. Lembro-me, quando era puto, de ter ficado acordado até às duas da manhã para gravar o concerto do Zeca Afonso que passou no canal dois, quando o símbolo do canal dois era simplesmente o número 2, como se fosse desenhado à mão. Lembro-me que o meu pai adormeceu entretanto e eu tratei de tomar as rédeas da gravação, de forma "profissional", cortando os intervalos - pois a cassete de VHS era daquelas de 120m - de maneira a caber tudo. Senti-me mais «adulto» por ter ficado até altas horas quando não era suposto. Claro que não sabia o que significavam aquelas músicas de resistência, claro que não sabia o era «esquerda» e o que era o «regime». Um puto de 7 anos não sabe o que é a Pide, talvez uma maneira chique de dizer peido, nem o que quer dizer Fascismo, MFA, Capitães de Abril (um bom nome para uma série de animação, tipo Marretas) ou anti-fascista. O que me interessava era a música - ouvia as cassetes e os cds todos-, a música do Zeca Afonso: era melodiosa, embuída duma carga sentimental enorme e, soube mais tarde, de sentido político, escondido obviamente nas entrelinhas das canções, sobre a liberdade de expressão, fim da censura e contra o portugal amordaçado durante 40 anos de fascismo. No concerto, Zeca já estava muito debilitado, levantava-se e sentava-se muitas vezes, tinha cábulas das letras espalhadas pelo palco, mas era ele, o Zeca, estava ali.
Excelente compositor e cantor, Zeca Afonso, entre outros, foi a voz da geração política anti-fascista dos nossos pais, a voz que cantava o que o país sufocava por forças várias. Lutou e conseguiu. E nós com ele, todos juntos. A música foi um símbolo de combate, de união e de celebração.
Zeca foi a voz da democracia e da liberdade. De facto, «o povo é quem mais ordena». Zeca foi a voz do povo, foi voz para o povo e, juntamente com Amália, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, entre outros, foi a voz de Portugal.

Descobri no sótão um livrinho do meu pai, que digitalizei para este blog, intitulado «José Afonso - Textos e Canções», coordenação de Vale Moutinho, Livraria paisagem, 1975. Um livrinho com entrevistas, ensaios, letras das canções, críticas, artigos de jornal, etc. Zeca é corrosivo, incisivo e polémico, mas absolutamente esclarecido e consciente. Leia-se o que ele diz, na página 33, sobre o gosto musical da altura, que se podia perfeitamente aplicar ao nosso tempo: "As pessoas estão contaminadas por um gosto que lhes é fornecido, que lhes é imposto, e fixa na verdade as preferências da maioria. Torna-se urgente reagir, contribuir para uma higienização desse gosto". A ler.









O autógrafo que Zeca Afonso deu ao meu pai, no livro atrás referido, assinando por cima da rúbrica que o meu pai faz em todos os livros que compra.

Vrummm! Vrummm!


Foto publicitária enviada por email, muito original e, esperemos nós, eficaz.